ARTIGO

O surgimento do rock no Amazonas

  • Quarta, 30 de novembro de 2011 às 23h59 (Atualização: 16/11/2020 13h06)
  • Denis Thaumaturgo
Joaquim Marinho e Denis Thaumaturgo sentados. Theo Alves em pé. (Foto: Marco Sahdo)
Joaquim Marinho e Denis Thaumaturgo sentados. Theo Alves em pé. (Foto: Marco Sahdo)

Em novembro de 2011, Marco Sahdo que na época era diretor da revista Amazon Expo Tattoo, me fez um convite para escrever uma matéria sobre o surgimento do rock no Amazonas. Eu não era jornalista e continuo não sendo, mas por gostar muito de escrever, topei o desafio. Além de Marco Sahdo, também contei com a presença de Theo Alves e Tina Guimarães que me deram todo suporte.

O rock surgiu nos anos 50 nos Estados Unidos. O ritmo acelerado e dançante logo se tornou popular, conquistando principalmente inúmeros jovens, que necessitavam de um rei, não necessariamente alguém de grande força e coragem, mas sim alguém com grande ousadia e criatividade. Surgia então o ‘Rei do Rock’ Elvis Presley, que com sua voz e a extravagante maneira de dançar, chamava muita atenção. Nos anos 60 surgiram o grupo ‘The Beatles’ tornou-se a banda musical mais bem-sucedida comercialmente. Essa década também ficou conhecida por muitos como ‘Anos Rebeldes’, em função dos grandes movimentos em favor da paz e ainda aconteceu o famoso ‘Festival de Woodstock’. Mas sim, Manaus estava perdendo toda essa história sendo escrita? Claro que não! Nós também tivemos o nosso herói.

O herói é português, navegador e explorador, porém não se chama Vasco da Gama, não navega nos mares e nem explora terras desconhecidas, mas foi o responsável por não deixar Manaus ficar ‘a ver navios’. Tratando-se de rock, nosso heroico português é o jornalista, historiador e radialista Joaquim Marinho, nascido na cidade de Porto, é um navegador e explorador cultural, que em uma época onde toda essa história do rock no mundo estava sendo escrita, ele abriu as portas para que o povo Manauara tivesse acesso a esse gênero inovador.

Em 1962, Joaquim Marinho entrou contra a tradição Manauara de ouvir o que ele em tom de brincadeira chama de ‘pré-brega’ e propôs a criação de um programa de rock na rádio, o primeiro da história de Manaus, apresentado por ele mesmo, onde tocava Little Richard, Ricky Nelson, Elvis Presley, The Beatles, dentre outros. Na época foi um sucesso na cidade, ao contrário do que contava Raul Seixas sobre sua experiência no começo em Salvador, quando em sua música intitulada ‘Rock N Roll’, dizia que “Há muito tempo atrás, na velha Bahia, eu imitava Little Richard e me contorcia, as pessoas se afastavam pensando que eu tava tendo um ataque de epilepsia”.

O radialista contou que na época em que foi estudar nos Estados Unidos, começou a ouvir as coisas que estavam surgindo por lá e então foi até Los Angeles, na tentativa de assistir o show dos Beatles, porém o ingresso estava muito caro, mas existia a possibilidade de se assistir dentro de um cinema e foi o que ele fez.

Joaquim também foi o primeiro representante da gravadora Philips, que contava muito material de rock e, como ele recebia os discos de graça, ouvia tudo o que era possível, hoje Joaquim possui uma coleção de mais de 32 mil LPs em sua residência. “O primeiro disco de rock que eu consegui foi um do Little Richard, se eu for falar isso para alguns roqueiros atuais, muitos nem vão saber quem é”, brincou Joaquim, que também contou que certa vez quando o cantor Tim Maia esteve em Manaus, foi dar uma olhada em sua coleção e quis levar algumas coisas, mas Joaquim em resposta disse “ou leva tudo, ou não leva nada”, porém hoje em dia ele nem pensa em se desfazer de seus discos.

O radialista contou que ainda na década de 60, teve uma aproximação muito boa com o pessoal do festival de música estudantil e que já no segundo ano, conseguiram trazer o grupo ‘Os Mutantes’, que contava com uma ilustre integrante chamada Rita Lee. Nos anos seguintes também trouxeram outros artistas do cenário nacional, que embalaram a cidade naquela época. Os festivais, que recebiam o nome de ‘Festival Estudantil de Música’, começaram a acontecer no Olímpico Clube, Rio Negro e Teatro Amazonas, “onde quase todos nós destruímos o teatro”, brincou Joaquim.

Advinha quem estava por trás da criação da primeira banda de rock em Manaus? Ele novamente, o nosso herói Joaquim, que além de criar e apresentar o primeiro programa de rock na rádio em Manaus, também criou juntamente com outros três amigos, a primeira banda de rock da cidade, que recebeu o nome de ‘Beat Rocks’. Essa banda fez sucesso na capital tocando covers do que eles ouviam, além de algumas versões próprias. “A censura aqui (em Manaus) foi relativamente fraca, pois o governador da época foi um cara liberal, ele tinha acabado de chegar da Suíça, e apesar de ele ter sido um professor de alta categoria, nós tivemos essa sorte”, contou Joaquim.

Alguns anos atrás, Joaquim também foi proprietário de um bar chamado Hollywood, onde ele de perto contratou e acompanhou bandas locais. Ele demonstrou admiração sobre o trabalho do grupo ‘Blue Birds’, que foi sucesso em Manaus nos anos 70, época das ‘festas do arromba’ e das ‘garotas papo-firme’.

Uma frustração de Joaquim Marinho, que foi amigo de Raul Seixas, é não tê-lo trazido para fazer algum show em Manaus, pois infelizmente o amigo faleceu antes disso se concretizar.  Joaquim sempre esteve muito ligado à cultura e arte, lançou recentemente os livros ‘Manaus, meu sonho’ e ‘A lenda da Vitória-Régia’, sendo o segundo, obra de sua filha Cristina Marinho, que o elaborou antes de ficar em semicoma há 17 anos, também foi proprietário de seis cinemas no centro de Manaus durante 20 anos, foi Secretário Estadual de Turismo e também de Cultura, trazendo inclusive o tenor José Carreras a Manaus, um dos maiores do mundo.

É também um dos colecionadores mais conhecidos na América Latina, pois coleciona coleções, como por exemplo, milhares de carrinhos em miniatura, mais de 32 mil discos, milhares de cartões postais de Manaus, selos postais e é dono da maior coleção de artes eróticas da América Latina. Perguntei para ele se no começo, sabendo tudo o que sabe agora, se teria feito exatamente tudo igual, Joaquim respondeu sorrindo: “Eu teria feito pior!”.

Nos anos que sucederam essa entrevista, Joaquim enfrentou uma batalha contra o Alzheimer, diabetes e problemas cardíacos que o levaram a óbito em 02 de junho de 2019. Sua residência se tornou um espaço cultural chamado “Casa de Cultura Joaquim Marinho” gerenciado pela família do mesmo. O local é uma fonte de conhecimento imensurável e que vale muito a pena ser visitado.